"Era um dia especial. Ambos o sabiam. Só ainda não tinham percebido o seu porquê.
Dirigiram-se para a praia, no fim de mais um dia de trabalho. Queriam estar ali. Queriam receber o que de mais puro existia na natureza. Queriam receber a calma do mar e a beleza do pôr do sol. Era Inverno, mas nem isso os demoveu. Já ali estavam. Não havia volta a dar. Ela caminhava de norte para sul e ele de sul para norte. Não se conheciam. Nunca se tinham cruzado. No entanto, estavam ali os dois. Naquele momento, naquela praia, a ver aquele pôr do sol. Sozinhos na imensidão do areal, sentiram-se tentados a falarem um com o outro.
Perguntou-lhe ele: - Olá. Que fazes aqui?
Ela respondeu: - Vim ver o pôr do sol... (Hesita!) Hum... E tu?
- Eu também. O stresse do dia - a - dia afasta-nos cada vez mais do que é essencial nesta vida.
Ela dispara: - O que é para ti essencial?
Ele estranha a pergunta mas responde: - O amor. A amizade. A fidelidade. Deus!
- E vens a uma praia buscar isso? Não o consegues encontrar no seio dos teus amigos, da tua família, no teu mundo pessoal?
- Consigo. Mas aqui tudo é mais fácil. Lá demoro demasiado tempo a perceber a importância dos gestos, de um olhar, a perceber certos sentimentos. Aqui não. Aqui tudo me vem com o vento. Tudo é claro. Tudo faz sentido. Sem colocarmos todas as entraves que a sociedade nos coloca. O politicamente correcto.
- Hum! Entendo. E sinto isso da mesma forma que tu sentes. Com toda essa elouquência. Mas seremos únicos? Porque é que existem tão poucas pessoas a pensar como nós?
- Não sei. Vamos molhar os pés?
- Bora lá! :)
Enquanto sentiam os pés a receber a água gelada do mar iam conversando. Sobre a vida, sobre o trabalho, sobre projecções futuras. Sentiam a necessidade de se conhecerem, de entrarem no mundo pessoal um do outro. Era inevitável.
A conversa durou e durou e a luz que existia era simplesmente da lua e das estrelas, a espelhar no mar. Só essa luz ainda os iluminava. Sentaram-se então na areia e continuaram a conversar. Apesar de ser Inverno, estava uma noite agradável. Continuaram a conhecer-se até que o sono chegou. Mas não queriam acabar com este momento. Adormeceram, juntos, apertando a mão um do outro.

Mal o sol nasceu, ela acordou. Olhou em sua volta e não viu ninguém. Não. Não poderia ser um sonho. Tudo foi real. Tinha de ser. Levantou-se e reparou no que estava escrito na areia.
"Não, não fui um sonho. Encontra-me. "
Ela sorriu. Acreditou. Procura... Espera encontrar. "